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13/11/2017 - 08h32min

Ensino religioso: especialistas defendem desconstruir matriz colonial

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FOTO: Miriam Zomer/Agência AL

Especialistas defenderam a desconstrução da matriz colonial durante o 9º Seminário Catarinense de Ensino Religioso, realizado nos dias 10 e 11 de novembro, no auditório do Instituto Federal Catarinense (IFSC), campus Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí.

“A desconstrução da matriz colonial só avança na medida em que os movimentos sociais reelaboram e consolidam princípios não coloniais de saber, de poder, de ser e de viver”, afirmou Reinaldo Matias Fleuri, pesquisador da UFSC/CNPq.

Segundo Fleuri, no caso do saber é preciso descontruir o mito da ciência universal.

“Somos herdeiros de um pressuposto de que existe um saber universal, transmitido a todas as pessoas, independentemente das diferenças culturais, isso logicamente induz à subalternização e a dominação dos outros saberes”.

O pesquisador também propôs a desconstrução do ser.

“O colonizado é desacreditado pela sua cor e raízes ancestrais, por isso questionamos o pressuposto racista e o caráter monocultural dos estados, para que os povos originários reconheçam criticamente os processos de subalternização a que foram submetidos”, justificou Fleuri.

Além disso, o professor da UFSC questionou a visão binária legada pela cultura ocidental que contrapõe a natureza à sociedade.

“Enfatizamos o mundo físico e o humano, descartando o universo mágico que dá sustentação aos conhecimentos dos povos ancestrais”, argumentou Fleuri, que incitou os educadores a “reconfigurar as micropolíticas das relações escolares cotidianas”.

Maria Cecilia Garcez Leme, doutoranda da FURB, concordou com o professor Fleuri.

“O Brasil não é catolicocêntrico, não é cristocêntrico, não eclesiocêntrico e nem teocêntrico exclusivamente, vivemos em um país multirreligioso e isso é um desafio para convivência das diferenças crenças e não crenças”, pontuou Maria Cecília.

Para a pesquisadora da FURB, é preciso aceitar o pluralismo religioso.

“No exclusivismo a minha fé é a melhor, a única, as demais estão aí, mas a minha é a que vale, nem quero conversar, enquanto o pluralismo religioso reconhece e assume a multirreligiosidade existente no país”, avaliou a doutoranda.

Para Maria Cecília, o professor de ensino religioso deve ter uma postura indócil “para enfrentar os processos de colonização de que somos herdeiros”, além de adotar uma perspectiva metodológica relacional, com ênfase na conversação e na convivência.

“Temos de recusar os conteúdos religiosos proferidos e legitimados pelos poderes eclesiásticos, gerar novos discursos pedagógicos e analisar a realidade do ensino religioso no Brasil a partir da sua totalidade, compreendendo as raízes coloniais do atual modelo, por isso propomos um ensino religioso que recupere a festa, a alegria e o riso: um ensino religioso brincalhão”.

Aniquilamento pela catequese
Marcos Rodrigues da Silva, teólogo professor da escola da CUT em Florianópolis, lembrou da diáspora africana promovida pelos mercadores de escravos a partir do século 15.

“O nosso povo ainda está invisível, são pobres na sua maioria, vítimas do aniquilamento com base na catequese e no escravismo”, lamentou Marcos Rodrigues.

Para o teólogo, a diferença entre europeus e africanos não se resume à cor da pele e pode ser constatada no uso distinto da racionalidade.

“A razão europeia é analítica por utilização, já a razão negra é intuitiva por participação. É a emoção que possibilita o elevar-se a um estágio superior de consciência, então a primeira coisa a retomar é que os negros têm emoção”, relatou o teólogo.

Rodrigues apresentou um projeto alternativo de sociedade, baseado na ética Ubuntu.

“O fundamento ético Ubuntu repousa no cuidado (do outro) e na partilha, é um projeto de sociedade possível diante da crise social, econômica, política e ambiental do  desenvolvimentismo ocidental”, observou o teólogo.

Bem viver x capitalismo
Élcio Cecchetti, professor da Unochapecó, comparou as noções de bem viver dos povos originários e das nações capitalistas.

“O bem viver é diferente do viver bem capitalista, cujo significado é ter um monte de coisas, um princípio que leva ao consumismo. Nesse sentido o bem viver se coloca como uma afronta e uma alternativa ao capitalismo”, ensinou Cecchetti.

Segundo o pesquisador da Unochapecó, o bem viver dos povos autóctones tem origem na convivência e na comunhão.

“Não é um conceito, não é uma teoria, não é uma utopia, é um estilo, uma forma de viver que está fundamentada em três pilares: viver bem com outro, com a natureza e com o criador. É a magia da solidariedade, do usufruir da natureza sem comprometer a geração futura, o bem viver é uma filosofia de vida incompatível com o capitalismo”, frisou Cecchetti.

Modo de vida insustentável
O professor Reinaldo Fleuri ponderou a contradição entre o desenvolvimento científico do século XX  e o chamado aquecimento global.

“No mundo contemporâneo a globalização tem gerado desenvolvimento científico e tecnológico, complicando as interações humanas com o esgotamento das fontes de energia, a acelerada destruição da biodiversidade e o aquecimento global ameaçando a sustentabilidade da vida”, descreveu o pesquisador da UFSC/CNPq.

Juares José Aumond, geólogo e professor da FURB, reconheceu a gravidade dos efeitos causados pelo aquecimento global, cuja estimativa é desalojar cerca de 1,5 bilhão de pessoas que vivem nas zonas costeiras até 2050.

“Estamos na reta final de um interglacial e essas mudanças são geradoras de grande desastres ambientais, com perdas socioeconômicas brutais, inundações, escorregamentos, verões mais quentes e prolongados, invernos rigorosos e curtos, chuvas concentradas, estiagens, incêndios e tempestades. É um momento de singularidade climática e a crise transcende as fronteiras dos países, mas daremos a volta por cima nos problemas ambientais e econômicos, virando esta página”, garantiu o especialista em paleoclima.

Parceria com a Alesc
O IX Seminário Catarinense de Ensino Religioso foi organizado pela Associação dos Professores de Ensino Religioso de Santa Catarina, em parceria com a Comissão de Educação da Assembleia e com a Escola do Legislativo Lício Mauro da Silveira.

“A partir da comissão criamos um  espaço maior de interlocução com a sociedade, foram muitas idas e vindas até chegar ao dia de hoje, às vezes têm muralhas para a gente desistir, mas nós não desistimos”, declarou Luciane Carminatti (PT), presidente da Comissão de Educação, referindo-se às dificuldades para viabilizar o seminário.

Vítor Santos
Agência AL

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