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Publicado em 08/12/2015

A sina dos familiares

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A aposentada Maria Marli de Brito Caetano tem 80 anos e uma saúde frágil. Há mais de 30 anos chora de tristeza por desconhecer o paradeiro da filha, Teresa Cristina de Brito Galiani. A moça tinha 19 anos quando saiu de casa, no Bairro Ponte do Imaruim, município de Palhoça, acompanhada de um namorado, para supostamente viver com ele em uma fazenda no estado de Mato Grosso. Isso aconteceu em 1981 e, desde então, a família nunca mais teve notícias de Teresa.

A mãe diz que a filha era uma jovem amorosa (hoje Teresa estaria com 53 anos) e não era uma pessoa ignorante. Portanto, se estivesse viva, teria voltado para casa ou feito contato com a família. Paradoxalmente, alimenta a esperança de viver o suficiente para reencontrar a filha. “Queria saber a verdade sobre o caso. Vivo sempre doente, nunca mais tive paz.” 

Laureci Vidal Correia compartilha a mesma sina de dona Maria. Quer encontrar a filha, Andrea Barbosa, viva. Ou pelo menos ter o direito de enterrar o seu corpo. Andrea morava no Bairro Itacorubi com duas irmãs até março de 2007. Tinha o hábito de sair de casa sem dizer para onde iria. Em um final de tarde, saiu e não voltou mais. A mãe conta que recebeu um tratamento discriminatório e humilhante da polícia ao tentar registrar o desaparecimento porque a filha era usuária de drogas. E acha que o caso não chegou a ser investigado. “Se eles tivessem ido procurar por ela, poderiam ter encontrado alguma pista.” Laureci argumenta que a polícia poderia ter investigado o local onde a filha supostamente comprava drogas.

Mais tarde, ela descobriu que o caso de Andrea não havia sido registrado como desaparecimento no boletim de ocorrência, por isso a moça nem constava nos registros de desaparecidos em Santa Catarina. No dia 12 de outubro, Andrea completou, ou teria completado, 35 anos. “Não sei se ela está viva ou morta. Continuo em busca dela porque quero ao menos enterrar a minha filha”, insiste a mãe.

As queixas em relação à atuação da polícia e à falta de estrutura de investigação são generalizadas. Em algumas delegacias, continuam informando que é preciso esperar 24 horas para fazer um registro de desaparecimento. “Esse prazo não está na lei e nunca existiu. Sabemos que as primeiras horas são cruciais para desvendar um desaparecimento”, diz a dona de casa Elodi Matilde Garcia, que procura o enteado, Everton Luiz da Cruz, desde 2011. Ele era estudante universitário e tinha 28 anos quando desapareceu, aparentemente sem motivos e sem deixar pistas.

A falta de sensibilidade para o atendimento dos familiares é outro aspecto criticado por Elodi. “A primeira coisa que a polícia nos disse é que não deveríamos ter esperança e que iriam procurar um corpo. Para eles, cada caso novo é apenas mais um número”, revolta-se.

Reconhecer um corpo é uma tarefa terrível para a família de um desaparecido. Mas ainda que seja trágico, pode ajudar a colocar um ponto final na história. A família de Fiorelo Demartini foi chamada algumas vezes pelo Instituto Médico Legal (IML) para possível reconhecimento de corpo não identificado. “Com o tempo, o IML não avisou mais a família e o caso caiu no esquecimento”, diz a filha do idoso desaparecido, Laídes Demartini de Almeida. Fiorelo tinha 81 anos em 2011 e apresentava um quadro de perda de memória e demência, em decorrência de cirurgias na cabeça, após um acidente de carro.

A câmera de segurança de uma casa vizinha registrou que o idoso saiu de casa às 5 horas da manhã, enquanto o restante da família dormia. Ninguém sabe para onde foi e nunca mais foi visto. As interrogações que permanecem após o desaparecimento torturam a família. “Estará vivo? Estará internado em algum lugar? Será que está passando fome ou necessidades?” São muitas perguntas sem resposta.

Apoio aos familiares

Maria, Laureci, Elodi e Laídes são algumas das dezenas de pessoas da Grande Florianópolis que frequentam o Grupo de Apoio aos Familiares de Desaparecidos (Gafad). O grupo as mantém mobilizadas para participar de programas de televisão e outras atividades de divulgação. Em casos de desaparecimentos recentes, o Gafad auxilia as famílias no encaminhamento para assistência psicológica e social.

Aldaleia Conceição, coordenadora do Gafad, relata que o grupo surgiu em função da carência de políticas públicas e de ações de apoio aos familiares dos desaparecidos. “Muitas vezes, quando conseguiam registrar a ocorrência, iam para casa com o BO sem saber o que aconteceu, nem o que fazer”, diz. Ela acredita que a causa se fortalece com a reunião de pessoas, em especial mulheres, que não se conformaram com o sumiço de seus entes e querem lutar para encontrar respostas. “O grupo possibilitou que pessoas com espírito de luta se unissem.”

O Gafad recebe muitos pedidos de ajuda, via internet, de pessoas que procuram desaparecidos em outras regiões do estado e do país. O trabalho de divulgação que as voluntárias fazem já auxiliou na resolução de diversos casos e serve de motivação para o grupo. “É uma alegria quando um desaparecido é encontrado. Isso mantém viva a chama da esperança”, explica Aldaleia.

Uma vez por semana, o Gafad promove uma oficina de artes em sua sede – situada em uma sala cedida pelo Estado, no terminal rodoviário de Florianópolis, ao lado da Coordenadoria de Pessoas Desaparecidas da Polícia Militar de Santa Catarina (PMSC). Os trabalhos artesanais ajudam a distrair e “ocupar a cabeça” das voluntárias que frequentam o grupo, ao mesmo tempo em que propiciam uma alternativa de renda, conforme a coordenadora.

Aldaleia, que não tem caso de desaparecimento na família e se envolveu com a causa a partir do pedido de ajuda de uma vizinha, percebeu alguns avanços em prol dessa causa nos últimos anos, mas afirma que as políticas públicas estão muito aquém do necessário. “Falta estrutura, faltam investigadores, não há material de trabalho”, resume. Os familiares concentram as esperanças na divulgação nas redes sociais e na mídia. “Nossa esperança é que a Política Estadual dos Desaparecidos seja aprovada e as coisas avancem mais. Ficamos contentes com a lei, mas não queremos que ela fique só no papel”, complementa Elodi Matilde Garcia.

Grupo de Apoio aos Familiares de Desaparecidos (Gafad)
(48) 9845-4555 | ggafad@gmail.com | Facebook: grupodeapoioaosfamiliaresdedesaparecidos

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