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09/11/2018 - 10h00min

Gravuras rupestres da Ilha são inspiração para livro lançado na Alesc

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Adnir Antonio Ramos, nativo da Fortaleza da Barra, em Florianópolis, é pescador e antropólogo
FOTO: Eduardo G. de Oliveira/Agência AL

O litoral de Santa Catarina é o mais rico em inscrições rupestres do mundo. São mais de 500 desenhos. Só na Ilha do Campeche, existem 140 catalogados. Curioso sobre essas memórias ancestrais, o antropólogo e pescador Adnir Ramos é um dos maiores pesquisadores sobre o tema no estado e acaba de lançar seu livro Divino Gênese: As descobertas do pescador antropólogo na Ilha de Santa Catariana. O lançamento na Assembleia Legislativa aconteceu nesta quinta-feira (08).

Em 1986, Adnir Ramos se deparou com gravuras rupestres e com grandes blocos de pedras, ao sair para pescar com seus amigos na Barra da Lagoa. Curioso, voltou a estudar, depois de um tempo afastado das salas de aula, e descobriu meios de interpretar as misteriosas gravuras já mencionadas pelo arqueólogo João Alfredo Roh, desde a década de 40, e a descobrir os alinhamentos arqueoastronômicos em relação às pedras mencionadas pelo geólogo General Vieira da Rosa, no livro Geognosia de Santa Catarina, lançado em 1918. Por fim, Ramos concluiu que tais pedras fazem parte de uma rede de megálitos conhecidas como menires e dolmens (monumentos pré-históricos de pedras) espalhados por todo o planeta Terra, e que as gravuras rupestres pertencem a uma linguagem que trata do ciclo da fertilidade humana.

“As gravuras rupestres e os monumentos megalíticos trazem uma mensagem para a vida. Há uma relação muito grande dos desenhos com a genética. O processo de criação da humanidade, de sua queda, os problemas relacionados à saúde parecem que estão todos registrados nas pedras. Existem inscrições rupestres pelo mundo todo, mas especificamente sobre as existentes em Santa Catarina não existe literatura suficiente que dê conta de toda a nossa riqueza”.

Este é o motivo que leva Adnir Antonio Ramos, nativo da Fortaleza da Barra, em Florianópolis, a pesquisar e escrever sobre o assunto. Em 1986, ele decidiu estudar biblioteconomia e, logo após, fez uma pós-graduação em antropologia para tentar entender o que significavam aquelas inscrições nas pedras que tanto via quando saía para fisgar peixes. O livro Divino Gênese sobre a história destas misteriosas mensagens remontam cerca de 5 mil anos atrás.

Adnir conta que os morros e costões do litoral do estado escondem desenhos rupestres e observatórios astronômicos que podem conter mensagens sobre o ciclo da vida e o futuro da humanidade. Cerca de 9 mil anos antes da chegada do bandeirante paulista Francisco Dias Velho, em 1673, quando se deu início ao povoamento moderno da Ilha de Santa Catarina, o Homem do Sambaqui habitava esse pedacinho de terra perdido no mar e procurava entender-se como parte da natureza e do universo.

“Podem ter sido os homens do sambaqui a ter feito os desenhos, mas não sabemos exatamente quando e quem colocou essas gravuras e esses observatórios. O que importa mesmo é a mensagem que deixaram”, afirma Adnir.

 

Registros da história

De acordo com o antropólogo, calcula-se que esses monumentos arqueológicos tenham entre 8 mil e 13 mil anos de idade. Antes disso, o nível do mar era mais alto e não seria possível colocá-los onde estão. Para Adnir, uma das interpretações possíveis diz respeito ao final do ciclo de vida da humanidade.

“Eu acho que a mensagem é esta: a humanidade precisa reconhecer que existiram sociedades inteligentes que trabalharam para a sobrevivência da Terra. Acredito que esses processos aconteçam em ciclos de 12 ou 13 mil anos, que é o tempo corrido desde o último degelo”, comenta, em referência ao fim da última era glacial, há aproximadamente 12 mil anos.

Pouco se sabe sobre os hábitos, a cultura e a rotina do Homem do Sambaqui. Objetos deixados para trás e agora encontrados por arqueólogos dão pistas sobre a vida social naquela época, mas há mistérios que a ciência moderna ainda não desvendou. Um deles, em Florianópolis, são os observatórios astronômicos construídos com pedras de dezenas de toneladas.

Na trilha da Galheta, no leste da Ilha, há um observatório de onde se pode ver o alinhamento do sol com as pedras em algumas datas do ano – equinócios de primavera e do outono, quando o dia e a noite têm duração igual (exatamente 12 horas), e solstícios de verão e inverno, quando os dias têm a maior (no verão) ou a menor (no inverno) duração ao longo do ano.

“Eu não sabia que o sol, a lua e as estrelas faziam esses movimentos aparentes (aparentes porque, na verdade, os movimentos que mais influenciam esses fenômenos são os da própria Terra – rotação, translação e precessão). Comecei a perceber isso à medida que comecei a vir para cá. Posso dizer que fui iluminado pelo conhecimento.”

 

O mistério nas pedras

No observatório da Galheta há dois tipos de monumentos: os dólmens (no bretão, dol = mesa e men = pedra), como aqueles famosos de Stonehenge, na Inglaterra, e os menires (no bretão, men = pedra e hir = longa), geralmente associados ao culto da fecundidade. São pedras aparentemente colocadas em uma certa disposição, com o intuito de aproximar os homens das divindades e dos ciclos universais.

“Essas pedras estão espalhadas pelo mundo inteiro. Evidentemente, não são formações naturais, elas foram colocadas nesses lugares. Geralmente estão apoiadas em três bases, como a Pedra Virada, aqui na Galheta, ou a Pedra do Frade, em Laguna. Pelas “frestas” das pedras, se enxerga o nascer do sol nas datas importantes para os ciclos da vida”, comenta o antropólogo.

Ao longo da pesquisa, Adnir chegou à conclusão de que os observatórios astronômicos e as gravuras rupestres que estão espalhados por quase todo o litoral catarinense tratam de um calendário da fecundidade, que também pode estar relacionado aos ciclos de plantio e colheita de alimentos.

“Esses povos que viveram na pré-história utilizaram esse calendário para gerar as famílias na época certa e ter filhos saudáveis. Se a mulher é fecundada no inverno, ela vai passar o verão inteiro na gestação, com calor em excesso. O incômodo passa para o filho. Por outro lado, se você planta alguma coisa no inverno, custa para se desenvolver. Se plantar na primavera, vai se desenvolver com força. O ciclo do homem funciona como o das plantas.”

 

Onde podem ser vistas as inscrições rupestres

As gravuras rupestres em baixo relevo estão em boa parte do litoral catarinense: Ilha de Porto Belo, Ilha do Arvoredo, Ponta das Canas, Ingleses, Santinho, Ilha das Aranhas, Barra da Lagoa, Galheta, Praia Mole, Joaquina, Campeche, Ilha do Campeche, Armação, Pântano do Sul, Ilha das Irmãs, Ilha do Papagaio, Pinheira, Guarda do Embaú, Garopaba e Ilha dos Corais.

Quanto aos observatórios arqueoastronômicos, o mais significativo fica no morro da Galheta, em Florianópolis. Para chegar até lá, pode-se ir pela trilha pública que se inicia no final da Fortaleza da Barra ou pela trilha do Instituto Multidisciplinar de Meio Ambiente e Arqueoastronomia (IMMA), liderado por Adnir, localizado no início da Fortaleza da Barra.

O IMMA conta com um museu onde existe uma coleção de arte rupestre com a reprodução de quase todos os painéis existentes na Ilha de Santa Catarina, além de artefatos cotidianos, como pontas de machado e relógios solares. Se agendado com antecedência, é possível combinar uma visita guiada com o antropólogo Adnir Ramos. A entrada custa R$ 10. Mais informações pelos telefones: (48) 99607-2201 e (48) 99621-8298.

Michelle Dias
Agência AL

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