Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina Agência AL

Facebook Flickr Twitter Youtube Instagram

Pesquisar

+ Filtros de busca

 
Assistir
14:00 Sessão Ordinária
Ouvir
14:00 Sessão Ordinária

Revista Digital

Cadastro

Mantenha-se informado. Faça aqui o seu cadastro.

Aumentar Fonte / Diminuir Fonte
Publicado em 08/07/2016

Jogador de handebol abdicou de olimpíada para salvar a vida da irmã

Imprimir Enviar
Gean Carlos Firmino se destacou nacionalmente no handebol na década de 90; com a possibilidade de carregar a tocha, ele revive o sonho olímpico

Há exatas duas décadas, o então jogador da seleção brasileira de handebol Gean Carlos Fermino abriu mão de disputar as Olimpíadas de Atlanta (1996) para ajudar a salvar a vida da irmã mais velha, Maria Helena. Aos 21 anos de idade, ele interrompeu a carreira promissora após passar por uma cirurgia de retirada de um rim para doação.

Hoje, aos 41 anos, o professor universitário vive a expectativa de ser um dos condutores no revezamento da tocha olímpica em Florianópolis, dia 10 de julho. A indicação para ter a honra de carregar o símbolo olímpico surgiu da mobilização de familiares e amigos, que relataram a história do ex-atleta nas campanhas de seleção de candidatos promovidas pelos patrocinadores dos Jogos Rio 2016. “Ser condutor representa a chance de participar dos meus Jogos Olímpicos. Ganhar a tocha é como receber uma medalha de participação. Com isso, fecho um ciclo olímpico um pouco maior, de vinte anos, um pouco diferente da maioria dos atletas, mas considero essa trajetória bastante exitosa. Estou extremamente feliz.”

ASSISTA: Reportagem da TVAL com Gean Carlos Fermino

OUÇA: Rádio AL conta a história do ex-jogador de handebol

Carreira
Gean começou a prática de esportes ainda na infância, em Imbituba, cidade no Sul de Santa Catarina. Por volta dos 11 anos de idade, já treinava handebol para disputar competições escolares municipais. Três anos mais tarde, em 1989, mudou-se para a Capital do estado para estudar na Escola Técnica Federal, onde foi incentivado a se aprimorar na modalidade. “Fazia de tudo um pouco: judô, atletismo – lançamento de peso, de dardo, corridas de 100, 200 e 800 metros –, futebol de campo e de salão, voleibol, basquete, mas o handebol sempre esteve presente. Foi uma escolha feita pelas aptidões físicas, a modalidade me cativou pelos movimentos.”

Depois, jogou pelo Clube AD Colegial, do Colégio Catarinense, e pelo Instituto Estadual de Educação. “Representei Florianópolis durante quatro anos em competições estaduais e nacionais. Diria que foi a minha base, a minha grande escola. Foi o ensaio para pensar em ser um atleta profissional.”

A primeira convocação para a seleção brasileira de handebol foi em 1993, para o Mundial da Grécia. Porém, na fase de treinamento, em Itajaí, não conseguiu se manter no grupo. Voltou a ser chamado em 1995, após ser eleito o melhor pivô do país durante o Campeonato Brasileiro realizado em Maringá, no Paraná. Assim, ficou entre os 16 atletas selecionados para disputar o Campeonato Mundial Júnior na Argentina. “Estava numa fase fantástica, ‘estourando no esporte’. Foi nessa época que descobrimos que a minha irmã mais velha tinha uma doença rara chamada glomerulonefrite rapidamente progressiva, que leva o sistema renal à falência.”

O atleta se preparava para as Olimpíadas de Atlanta, nos Estados Unidos, mas decidiu renunciar ao sonho de representar o país na competição para ajudar a salvar a vida da irmã, que necessitava de um transplante de rim. “Quem vai para a seleção júnior tem grandes chances de ficar na equipe para as competições seguintes. Por isso, acredito até hoje que, se continuasse a jogar, era muito provável que estivesse no grupo pré-selecionado para os Jogos Olímpicos de 1996, por questões técnicas e índices de desempenho.”

Doação
Com o agravamento do quadro clínico de Maria Helena, os membros da família se submeteram a exames para analisar a compatibilidade para a doação de um rim. “Chegamos à conclusão de que era necessário um transplante. Eu e a minha irmã do meio, Ana Cristina, tínhamos a compatibilidade genética e celular. Porém, meus índices nos testes foram um pouco melhores do que os dela.”

De acordo com Gean, o processo de tomada de decisão para ser um doador foi tranquilo. “Ficava muito preocupado e nervoso ao acompanhá-la nos tratamentos. Estava bastante impactado ao ver a minha irmã mais velha, uma referência pra mim, naquele estado. No meu caso, a decisão veio de forma serena, segura, natural, não tive nenhum tipo de bloqueio”, conta. “Acordei num dia com a decisão tomada de que seria um doador. Tinha assimilado toda a situação, considerado todas as possibilidades, como continuar jogando, atuar na seleção, ir para os Jogos Olímpicos. Ainda que eu tivesse medo da cirurgia e do futuro, me encontrava num estado de espírito sossegado para enfrentar a situação.”

Ao refletir sobre o caso, ele destaca que a experiência contribuiu para fortalecer os laços familiares. “Os sentimentos de amor e respeito se consolidam, os vínculos se confirmam ao longo do tempo. Isso se prolongou depois, tanto para a família dela, a da minha irmã do meio, a minha própria, quanto a de amigos e colegas. Acho que serviu de exemplo para outras pessoas, que enfrentaram outros desafios. De alguma forma, entendo que isso nos marcou positivamente.”

Gean compara a decisão de doar um órgão à de ter um filho. “A escolha consciente de ter um filho é algo muito forte, de trazer um ser à vida. Quando doamos um órgão, não deixa de ser como ter um filho também, só que é um processo um pouco mais complexo porque você tira parte do próprio corpo para doar a alguém. Pode parecer mais complexo, mas na verdade é simples, é pensar que dessa forma podemos ajudar outra pessoa.”

Em decorrência da doação do rim, ele encerrou, prematuramente, a carreira profissional de atleta. “Os médicos me orientaram a parar de jogar handebol de alto desempenho, que tem muito contato físico, pois estava em situação de sensibilidade, com apenas um rim, e poderia ter uma lesão ou choque.”

Gean passou então a se dedicar aos estudos e ao trabalho, sem abandonar o vínculo com o esporte. Formado em Administração, com especialidade em Engenharia de Produção, atua como professor universitário de gestão do esporte na Unisul. Também executa projetos de gestão, planejamento e instalações esportivas.

Nova oportunidade de participar das Olimpíadas
O processo da indicação de Gean para ser um dos condutores da tocha olímpica envolveu amigos e familiares. Ele lembra que tudo começou quando assistiu a uma propaganda na televisão sobre a campanha de seleção de candidatos para o revezamento da tocha. “Comentei com a minha esposa sobre como essa experiência deve ser emocionante.”

Com a intenção de prestar uma homenagem ao marido, Fernanda Bonato contatou várias pessoas próximas do casal para solicitar que indicassem Gean como condutor da tocha olímpica. “Tenho muito orgulho da história dele. A doação por si só já é uma decisão difícil, ainda mais quando se interrompe uma carreira. Queria deixar registrado o ponto de vista de várias pessoas em relação à história do Gean, pois cada um sente de uma maneira diferente.”

A iniciativa resultou em mais de dez indicações. Além de Fernanda, participaram da mobilização o pai de Gean, João; a filha, Helena; a irmã Ana Cristina; o ex-surfista profissional Rodrigo “Moa” Soares dos Santos, ex-aluno e conterrâneo de Imbituba, e outras pessoas.

Fernanda relata que se emocionou com o depoimento de José Tito Casara Inácio, integrante do time que disputou o Mundial Júnior na Argentina, que acompanhou de perto o drama vivido pela família Fermino naquela época. “O Gean é meu exemplo de espírito olímpico. Ele merece carregar a tocha olímpica. Gean luta pelos valores reais do esporte: amor, saúde, amizade, inclusão social e respeito”, escreveu Tito na ficha de indicação.

Turbilhão de emoções
A confirmação da participação no revezamento da tocha olímpica pelo Comitê Organizador dos Jogos fez Gean resgatar memórias especiais. “Voltei a alimentar meus sentimentos relacionados ao esporte. Até porque eu já tinha deixado isso muito bem guardado. Passei a reviver alguns detalhes do que passei enquanto atleta. Isso me remete à cirurgia, ao transplante, pois faz exatamente 20 anos. É um turbilhão de fortes emoções.”

Gean encara a experiência como o fechamento de um ciclo. “Não me arrependo em momento algum. Se tivesse que voltar, faria tudo de novo porque foi uma decisão bem tomada. Fez de mim uma pessoa muito melhor, mais sensível, mais madura. A doação de um órgão é muito impactante na vida de uma pessoa. Tive a oportunidade de ajudar a minha irmã naquele momento e, anos mais tarde, ela fez o gesto lindo de adotar três irmãs”, diz, com lágrimas nos olhos.

Agora o ex-atleta aguarda ansiosamente pelo dia 10 de julho, data em que vai ter a honra de conduzir a tocha olímpica por um trecho de 200 metros na Madre Benvenuta. “É muito curtinho, mas deve ser um momento único! Devo trotear e caminhar um pouco, curtir o momento, olhar para as pessoas, especialmente os meus filhos, Helena e Ernesto, os meus pais, a minha esposa e os amigos. Como as minhas irmãs moram em Curitiba e Porto Alegre, vamos fazer um vídeo para mandar pra elas”, conta.

O pai de Gean já fez até um suporte com base de madeira e uma caixa de acrílico para expor a tocha. Mas, antes de guardá-la, o ex-atleta pretende levar o artefato a locais representativos para ele, em Florianópolis, São José e Imbituba, como forma de compartilhar a experiência marcante com outras pessoas. “Não cheguei aqui sozinho, tive a ajuda de muita gente que participou desse processo, fez parte da minha trajetória, como os meus professores, técnicos, aqueles que jogaram comigo, alunos, amigos. Quero que as pessoas tenham contato com esse objeto que simboliza os Jogos Olímpicos.”

Voltar